Alguém para me guiar nesta busca?

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Re: Alguém para me guiar nesta busca?

Postby Canfora » Fri Nov 25, 2016 5:15 pm

Viva Viajante!

Este é o texto que partilhamos com alguém que vê que o eu separado é uma ilusão. Penso que se enquadra com aquilo que partilhas sobre a queda das crenças, a desorientação, o receio de perder o chão... partilho, na esperança que te seja útil:
  • "Caindo (falling)

    Certo, é agora que fica interessante.

    Uma vez que a crença central foi encarada, haverá um monte de crenças perdidas. Imagine que é como um sistema de computador, se eliminar alguns programas, haverá alguns arquivos deixados para trás que vão abrandar o desempenho, então você geralmente vai fazer uma limpeza. Desfragmentar o sistema, sintonizar-se.

    E derrubar a crença central é como um tsunami no seu sistema. Ele deixa um monte de escombros para trás, um monte de cadáveres para cuidar. Então, o que você quer fazer aqui é clarificar e esclarecer mais. Manter um olho na verdade, deixar as crenças vir à superfície. Elas virão para cima, uma a uma para serem libertas. Não lute contra elas, não se agarre a nada. Assim que você começar a agarrar-se a uma crença, a uma ideia, você fica preso. Para se soltar, apenas deixe tudo cair. Eu chamo a esta fase "Caindo (Falling)", porque tudo o que é falso cai , tudo o que é verdade, cai no seu devido lugar.

    Alguns dizem que isto leva um par de meses, mas somos todos diferentes. Portanto, não há nenhuma garantia de quanto tempo vai levar para o seu sistema se reiniciar e reequilibrar. A fé na verdade é sua amiga. O desejo de retirar a última mentira do seu sistema é um outro amigo, bem como a prontidão para deixar ir tudo o que não serve mais.

    Olhe com atenção para as suas crenças mais preciosas, as que estão próximas ao coração, na zona intocável. Elas são aquelas que você realmente quer inspecionar de perto. Você vai reconhecê-las porque vai sentir resistência. Siga a resistência. Está aqui para que você saiba que outro bocado de uma mentira está sentado em algum lugar à espera para ser observado.

    Quando o ponto de atrito é removido, a vida se torna mais fácil, até que ganha uma verdadeira sensação de liberdade, apreciação, ausência de esforço, confiança e inspiração. E assim por diante. Há liberdade em cada situação. Há liberdade para expressar, sem sentimentos de culpa, medo, estar errado. A liberdade não é da situação negativa, mas dentro destas situações. A vida não é mais olhada através da lente do "eu". É completamente aberta, pronta para ser explorada.

    Viva, aprecie, passe a mensagem.

    Ilona Ciunaite"
Se acredito que tomo as decisões desse corpo, é porque acredito que existe algo que funcionaria independente do ambiente, por vontade própria, e seria esse algo que estamos procurando, estou certo?
Sim, estamos a questionar aquilo que pensas que és - o eu, o sujeito, a entidade que é suposto existir separada da vida. Este teu último post deixou-me um bocado confusa. Pretendes continuar?

Abraço,
S

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Re: Alguém para me guiar nesta busca?

Postby Viajante » Fri Nov 25, 2016 8:47 pm

Olá Sandra!

Muito obrigado pelo texto que compartilhasses, é realmente muito bom ter alguém com quem compartilhar essas questões.

E perdão se lhe deixei confusa com as respostas. Talvez eu não tenha conseguido me expressar direito. Mas com certeza desejo continuar a investigação.

Abraços.
Cordialmente,
Viajante

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Re: Alguém para me guiar nesta busca?

Postby Canfora » Sun Nov 27, 2016 2:44 pm

Boa tarde, Viajante!
E perdão se lhe deixei confusa com as respostas. Talvez eu não tenha conseguido me expressar direito. Mas com certeza desejo continuar a investigação.
Boa, vamos então continuar.
Mas aparentemente acredito que o fato desse eu não ser encontrado, não serve como prova de que não exista.
Isto é um bocado como dizer que apesar de não se encontrar o Pai Natal não existem provas de que o Pai Natal não exista... mas vamos continuar a verificar se aquilo que pensas ser o eu é realmente um eu.
Como se eu fosse essa pessoa, que percebe tudo, e age de maneira independente do ambiente, mas que naturalmente não percebe como o faz, simplesmente porque é assim que os corpos funcionam.
Falas sobre ser uma pessoa que age de maneira independente do ambiente e falas sobre a forma como os corpos funcionam.

Isso quer dizer que, ao observar o que está presente aqui e agora encontras:

- uma pessoa?

- um corpo?

duas coisas distintas e independentes uma da outra?

Como é que sabes que o corpo é independente do ambiente?

Abraço,
S

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Re: Alguém para me guiar nesta busca?

Postby Viajante » Tue Nov 29, 2016 8:33 pm

Boa tarde Sandra!
Falas sobre ser uma pessoa que age de maneira independente do ambiente e falas sobre a forma como os corpos funcionam.

Isso quer dizer que, ao observar o que está presente aqui e agora encontras:

- uma pessoa?

- um corpo?

duas coisas distintas e independentes uma da outra?
Encontro um corpo. Para ser mais preciso, encontro imagens, sensações, cheiros, sons e sabores que presumo estarem sendo percebidos por esse corpo. E pensamentos que presumo estarem sendo gerados e percebidos por esse corpo.

E por estar no centro disso tudo, presumo ser eu/meu este corpo.
Como é que sabes que o corpo é independente do ambiente?
Não tenho como afirmar, mas existe essa impressão de estar tomando decisões.

Agradeço pelo apoio, Sandra.

Abraços.
Cordialmente,
Viajante

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Re: Alguém para me guiar nesta busca?

Postby Canfora » Wed Nov 30, 2016 12:48 pm

Olá Viajante,
E por estar no centro disso tudo, presumo ser eu/meu este corpo.
OK, observa o corpo e descreve este eu que está no centro do corpo.
Como é que sabes que o corpo é independente do ambiente?
Não tenho como afirmar, mas existe essa impressão de estar tomando decisões.
Quando o corpo se move - existe um eu que decide como o corpo se move?
Existe um eu que decide respirar, fazer a digestão, piscar os olhos, coçar quando sentes comichão, o momento em que adormeces e acordas?

Abraço,
S

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Re: Alguém para me guiar nesta busca?

Postby Viajante » Fri Dec 02, 2016 9:23 pm

Olá Sandra!
OK, observa o corpo e descreve este eu que está no centro do corpo.
Não consigo encontrar nada além de imagens, sons, sensações, cheiros, sabores e pensamentos.

Isso fica mais evidente quando paro para observar cada sentido separadamente.
Quando o corpo se move - existe um eu que decide como o corpo se move?
Existe um eu que decide respirar, fazer a digestão, piscar os olhos, coçar quando sentes comichão, o momento em que adormeces e acordas?
Existem as sensações de o corpo se movendo, pensamentos, mas nada além disso pode ser encontrado. Também existe essa sensação de ter controle sobre os pensamentos, mas não há nada além de sensações e pensamentos sobre ter controle.

Se isso é tudo o que pode ser percebido, quem ou o que está percebendo? Foi a primeira vez que realmente senti alguma dúvida sobre talvez nunca ter visto minha "verdadeira face".

Obrigado pela ajuda!

Abraços. Bom fim de semana.
Cordialmente,
Viajante

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Re: Alguém para me guiar nesta busca?

Postby Canfora » Mon Dec 05, 2016 10:38 am

Olá Viajante, bom dia!
Se isso é tudo o que pode ser percebido, quem ou o que está percebendo?
Boa pergunta. É possível encontrar um eu - uma entidade duradora, independente, separada - que está "por trás" de tudo o que está a acontecer aqui e agora? Existe um eu que está a fazer este inquérito?

Quando procuras um eu, encontras algo que te pareça ser uma prova de que um eu existe?

Algo mudou no teu dia a dia, desde que começamos a conversar?

Abraço,
S

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Re: Alguém para me guiar nesta busca?

Postby Viajante » Mon Dec 05, 2016 11:03 pm

Olá Sandra!

Agradeço por continuar me ajudando a examinar esse eu.
Boa pergunta. É possível encontrar um eu - uma entidade duradora, independente, separada - que está "por trás" de tudo o que está a acontecer aqui e agora? Existe um eu que está a fazer este inquérito?
Não é possível encontrar esse eu, apenas pensamentos. Mas, apesar de tudo indicar que um eu não existe, parece haver uma resistência em aceitar isso. Difícil dizer exatamente o que é. Talvez receio de perder o controle sobre os rumos da vida.
Quando procuras um eu, encontras algo que te pareça ser uma prova de que um eu existe?
Na experiência não há nada que sirva como prova desse eu. As vezes me questiono se os pensamentos não estariam sendo gerados por esse eu, que de alguma forma não poderia ser visto, mas percebo o quão especulativo isso é.
Algo mudou no teu dia a dia, desde que começamos a conversar?
Para ser sincero, as vezes parece que tudo tem ficado ainda mais confuso. Existe uma necessidade muito grande de desvendar isso de uma vez por todas, mas um medo de estar perdendo tempo com isso, pois é algo que talvez eu nunca consiga. Já pensei algumas vezes em desistir.

Mas a verdade é que já fui longe demais, e depois de tudo o que li e vi, não me vejo voltando atrás. Atualmente, perceber a verdade por trás disso tudo é a minha prioridade.

Hoje, enquanto me preparava para responder suas perguntas, tive alguns instantes de clareza. Por alguns momentos, ficou nítido que no presente o eu não passa de pensamentos. De repente ficou óbvio porque não existe nem nunca existiu um eu nessa busca - pensamentos não buscam... Mas logo em seguida tudo voltou como era antes, como se uma casca se fechasse. Talvez seja apenas eu me distraindo.

Ter um guia dá uma confiança maior para dar esses passos no escuro. Obrigado, Sandra.

Uma ótima semana para você.

Abraços.
Cordialmente,
Viajante

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Re: Alguém para me guiar nesta busca?

Postby Canfora » Tue Dec 06, 2016 10:47 am

Viva Viajante, bom dia!
Para ser sincero, as vezes parece que tudo tem ficado ainda mais confuso.
O que é que dirias que parece ter ficado mais confuso?
Os pensamentos sobre este assunto ou o que pode ser visto, sentido, cheirado, tocado, ouvido, saboreado?
Se te focares nesta experiência - no aqui e agora - dirias que "confuso" existe fora dos pensamentos que interpretam esta experiência?
Mas logo em seguida tudo voltou como era antes, como se uma casca se fechasse. Talvez seja apenas eu me distraindo.
Este balançar entre clareza e confusão é normal e pode durar algum tempo. Penso que o que te acontece é que olhas - e vês que um eu não pode ser encontrado (apesar de ser pensado...) - e depois os pensamentos formam uma espécie de filtro - e parece que tudo está na mesma, que tem de existir um eu. Este "balançar" pode levar algum tempo a estabilizar.
Já pensei algumas vezes em desistir.

Mas a verdade é que já fui longe demais, e depois de tudo o que li e vi, não me vejo voltando atrás. Atualmente, perceber a verdade por trás disso tudo é a minha prioridade.
Sabes, pensar que não consegues é apenas isso, um pensamento :)
Claro que em momentos de frustração e confusão esta ideia de que um pensamento é um pensamento não serve de consolo ou estímulo. Mas eu diria que estás a ir muito bem, é só uma questão de confiares neste processo e de teres alguma paciência contigo e comigo.
parece haver uma resistência em aceitar isso. Difícil dizer exatamente o que é. Talvez receio de perder o controle sobre os rumos da vida.
Penso que a resistência pode ser um sinal de que, em vez de acreditares cegamente no que aqui te é proposto deves ver o que é ou não verdade para ti, na tua própria experiência. O que é ótimo!
Atualmente, perceber a verdade por trás disso tudo é a minha prioridade.
Bom... como é que sabes se algo é verdade? Podes dar-me um exemplo prático de algo que sabes que é a verdade?
Talvez receio de perder o controle sobre os rumos da vida.
Compreendo. Repara que se é verdade que não existe um eu separado da vida que tem controle sobre a vida, tudo o que te aconteceu até agora aconteceu sem um eu ao controle. É improvável que veres claramente que não existe um eu separado te transforme em alguém irresponsável e sem controlo.

Dirias que aquilo que te tem acontecido na vida é o resultado de uma infinidade de fatores - antecedentes familiares, as pessoas que vais conhecendo, a escola, a cultura, fisiologia, etc, etc, etc - ou de um eu que tem controlo sobre o que se passa e que faz da vida o que quer? Existe, por exemplo, um eu que tem a capacidade de rumar contra todos os obstáculos que lhe aparecem para moldar a vida à sua maneira?

Existe alguma experiência que tens a certeza absoluta que é controlada por um eu? Qual é esta experiência?

Abraço,
S

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Re: Alguém para me guiar nesta busca?

Postby Viajante » Thu Dec 08, 2016 12:53 am

Boa noite Sandra!

Obrigado de coração pelas orientações e gentileza nas respostas. Vamos lá.
O que é que dirias que parece ter ficado mais confuso?
Os pensamentos sobre este assunto ou o que pode ser visto, sentido, cheirado, tocado, ouvido, saboreado?
Se te focares nesta experiência - no aqui e agora - dirias que "confuso" existe fora dos pensamentos que interpretam esta experiência?
Apenas os pensamentos ora ou outra ficam confusos. O que pode ser percebido pelos sentidos continua como sempre foi, e voltar a atenção para essas sensações sempre traz alguma serenidade. E, de fato, "confuso" existe na realidade apenas como uma ideia, um rótulo que coloco sobre essa situação.
Este balançar entre clareza e confusão é normal e pode durar algum tempo. Penso que o que te acontece é que olhas - e vês que um eu não pode ser encontrado (apesar de ser pensado...) - e depois os pensamentos formam uma espécie de filtro - e parece que tudo está na mesma, que tem de existir um eu.
Faz bastante sentido.
Bom... como é que sabes se algo é verdade? Podes dar-me um exemplo prático de algo que sabes que é a verdade?
Acho que a experiência é o mais próximo que consigo da verdade. Mesmo uma cor, como vermelho, nos sabemos que provavelmente nem existe na realidade, mas é inegável que "percebo o vermelho". Qualquer conceito acho que pode ser questionado. E o do momento é esse teimoso "Eu" :)
Dirias que aquilo que te tem acontecido na vida é o resultado de uma infinidade de fatores - antecedentes familiares, as pessoas que vais conhecendo, a escola, a cultura, fisiologia, etc, etc, etc - ou de um eu que tem controlo sobre o que se passa e que faz da vida o que quer? Existe, por exemplo, um eu que tem a capacidade de rumar contra todos os obstáculos que lhe aparecem para moldar a vida à sua maneira?

Existe alguma experiência que tens a certeza absoluta que é controlada por um eu? Qual é esta experiência?
Por mais que eu tente eu não consigo encontrar esse eu. No máximo especular, o que não ajuda. Tudo o que percebo são imagens, sons, sensações, cheiros, sabores e pensamentos. Mas parece existir essa crença de que se isso tudo é percebido, é percebido por algo, e esse algo não pode ser percebido porque do contrários seria apenas mais uma percepção.

Agradeço pela ajuda e paciência, Sandra. Isso é realmente importante pra mim.

Até mais!

Abraços.
Cordialmente,
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Re: Alguém para me guiar nesta busca?

Postby Viajante » Fri Dec 09, 2016 2:55 am

Boa noite Sandra!

Hoje durante o dia percebi que provavelmente esse Eu no aqui e agora realmente não deve passar de um pensamento sendo percebido, recorrentemente. Perceber isso teve algum impacto, mas não posso dizer que "vivo" isso como vivi durante aqueles instantes que comentei contigo no dia 5 de dezembro. Ainda assim, sinto algum distanciamento, um relaxamento sutil da experiência (ou é só imaginação minha). Isso faz sentido para você?

Há pouco tentei recomeçar do zero a investigação, testando na experiência, para ver o que estava deixando escapar, mas ainda não consegui descobrir.

Ao que me refiro por Eu?

1. Eu sou o corpo
Não, eu vejo o corpo
Eu sinto o corpo
Eu percebo os pensamentos

2. Então, sou algo dentro do corpo
Eu percebo as imagens que aparentemente seriam vistas do ângulo dos olhos
Eu percebo os sons que aparentemente seriam ouvidos de entre as orelhas
Eu percebo os pensamentos mas não é possível localizar sua origem
Eu percebo as sensações nas origens, e.g. no pé
Eu percebo cheiro e sabor

3. Na verdade eu não percebo, essas imagens e sensações são apenas percebidos, pois não é possível encontrar quem percebe

4. Sou a consciência


Obrigado pela ajuda.

Abraços.
Cordialmente,
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Re: Alguém para me guiar nesta busca?

Postby Canfora » Fri Dec 09, 2016 11:26 am

Olá Viajante, bom dia.

Parece-me que é a forma como a linguagem implica a existência de um sujeito que te está a manter preso na ilusão.

O que me leva a traduzir este artigo da Ilona, que penso que te pode ser útil - http://markedeternal.blogspot.pt/2012/0 ... guage.html

"O truque da linguagem:

Quando aprendemos a dizer as nossas primeiras palavras, os pais ficam tão felizes. Aprendemos rápido e começamos a comunicar o que queremos. Aprendemos a dizer eu, a minha, meu e compreendemos que estas são palavras muito importantes: quando as usamos, conseguimos o que queremos. É o meu brinquedo, a minha mãe, eu quero isso, eu faço isso.

Nossos pensamentos aparecem como palavras, cordões de palavras, juntas em frases. As palavras contam uma história. A história mais importante é aquela que é sobre mim.

Devido à forma como a linguagem é construída, temos rótulos para objetos e temos rótulos para ações. Cada palavra aponta para algo, sejam coisas práticas ou coisas imaginárias, mas as palavras em si são apenas rótulos. Como casa, carro, mulher, gato, pensamento, sentimento, sol, etc. Os substantivos apontam para objetos, idéias, algo que é sólido. Aprendemos que em coisas sólidas não há movimento.

Quando expressamos alguma ação através de palavras, há sempre um eu que se assume que faz a ação: eu respiro, eu ando, eu assisto TV, ouço um som, você ouve a música, estamos a jantar, um carro está a passar. Há sempre alguém / algo aqui que está a fazer algo. Mas quando olhamos de perto e tentamos achar esse fazedor, não está em lugar algum, é apenas uma construção da linguagem, uma palavra que eu assumimos que é uma entidade real / um eu que faz.

Se a linguagem fosse construída apenas a partir de verbos, o mundo era sentido de forma bem diferente: respirar, digitar, olhar ao redor, ouvir música, conversar com um amigo, andar, comer ... Toda a ação poderia ser expressa sem um sujeito e ainda seria a mesma ação. Se a palavra eu não for utilizada, nada muda.

Eu respiro - a respiração está acontecendo. Vê, não há um eu que respira. Há apenas ação pura. E por causa da linguagem ficamos confusos e assumimos uma identidade. A palavra eu torna-se o ponto central da vida, e precisa de ser protegida, defendida e cuidada. Ótimo. Mas é apenas um rótulo, que aponta para nada que possa ser percebido pelos sentidos.

Ilona está a escrever isto. Eu estou a escrever isto. Carregar nas teclas está a acontecer. A ação pode ser expressa através de palavras diferentes, mas a ação em si não depende de como ela é rotulada. Em vez de usar a palavra Ilona para referir este corpo, concordou-se em usar a palavra eu, o que é conveniente quando conversmos uns com os outros. Mas nem Ilona, ​​nem o eu está a escrever. Digitar está a acontecer sem esforço, à medida que o próximo pensamento surge.

A vida está a acontecer simplesmente, sem um eu que faz, sem um gerente, observador, selecionador, testemunha que está de alguma forma fora, separado, do que está a acontecer. Há essa ilusão, de que um eu está aqui, mas são apenas palavras que apontam para uma história sobre mim / eu, nenhuma coisa que é o eu existe.

A linguagem é uma ferramenta. De alguma forma, os seres humanos se tornaram vítimas dela através da suposição de uma entidade separada. Esta identidade só cria miséria e sofrimento desnecessário. É uma piada cósmica. Os seres humanos não só aprenderam a falar, mas também aprenderam a nunca questionar essa identidade, uma vez que todos ao redor estão presos na mesma prisão suave de palavras.

O que está aqui entre os pensamentos? Apenas isto - sensações, sentimentos, percepção. Ser- como um verbo. E os pensamentos contam uma história sobre isso, onde o eu é o personagem principal e onde você está separado de mim.

Tente descobrir esse que está a fazer as coisas acontecerem. O lado engraçado é que nada está escondido, está tudo à vista e com um pouco de investigação curiosa, fica claro, que o eu vive em um mundo imaginário, apenas em histórias sobre mim. Quando a história é levada a sério, todo o tipo de drama acontece. Neste ponto, apenas lembre-se que qualquer história que está sendo contada, é ficção. A vida continua independentemente do quais são as palavras usadas pela mente para descrevê-la."

Se quiseres testar o que diz este artigo, tenta este exercício:

Precisas de algum tempo e papel e caneta.

Primeiro escreve o que estás a experimentar agora, usando a palavra eu nas frases. Deixa de lado as fantasias passadas ou futuras, faz apenas a descrição simples de que está a acontecer aqui e agora.

Assim - Eu estou deitado na cama. Eu estou a ouvir a chuva, eu estou a escrever estas palavras.

Faz isto por 10 minutos.

Observa o corpo: há alguma sensação de contração ou há relaxamento?

Depois, passa 10 minutos a descrever o que está a acontecer, sem usar a palavra eu. Usa apenas verbos:

À espera do próximo pensamento, escrever, respirar, piscar os olhos, ouvir a chuva.

Verifica mais uma vez o que está a acontecer no corpo.

Agora compara as duas maneiras de descrever a experiência - uma é mais verdadeira do que a outra? Em caso afirmativo, qual? Usar o eu afeta a experiência de alguma forma? Algo muda quando o eu não é usado?

Partilha o que descobrires.

Abraço,
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Re: Alguém para me guiar nesta busca?

Postby Viajante » Tue Dec 13, 2016 3:36 am

Olá Sandra!

Muito bom o artigo.
Primeiro escreve o que estás a experimentar agora, usando a palavra eu nas frases. Deixa de lado as fantasias passadas ou futuras, faz apenas a descrição simples de que está a acontecer aqui e agora.
O que escrevi: Eu estou ouvindo grilos. Eu estou digitando. Eu estou pensando. Eu estou olhando para a tela do notebook. Eu ouvi um carro passar. Eu ouvi um cachorro latir. Eu estou respirando. Eu estou aguardando algo acontecer. Eu ouço outro carro passar. Eu sinto meu coração bater. Eu sinto a cadeira. Eu coço a cabeça. Eu estou ouvindo outro carro passar.
Observa o corpo: há alguma sensação de contração ou há relaxamento?
O uso do "Eu" geralmente provoca alguma contração no corpo. Tenho percebido isso há algum tempo e também percebi durante o exercício.
Depois, passa 10 minutos a descrever o que está a acontecer, sem usar a palavra eu.
O que escrevi: Ouvir o carro. Digitar. Pensar. Ouvir outro carro passando. Ouvir grilos. À espera de algo. Pensar. Coçar a cabeça. Coçar o queixo. Espreguiçar. Sentir o coração. Ouvir o barulho da cadeira. Pensar. Pegar a garrafa. Tomar água. Fechar a tampa da garrafa.
Verifica mais uma vez o que está a acontecer no corpo.

Agora compara as duas maneiras de descrever a experiência - uma é mais verdadeira do que a outra? Em caso afirmativo, qual? Usar o eu afeta a experiência de alguma forma? Algo muda quando o eu não é usado?
É possível perceber algum relaxamento no corpo quando descrevo as ações sem usar o "Eu". Essa versão parece mais próxima da verdade. Por outro lado, fica claro que a vida segue usando ou não usando o "Eu". É apenas uma forma diferente de descrever o que está acontecendo.

Engraçado como realmente existe em mim essa crença de que toda ação precisa ser realizada por algo. E essa crença é tão forte que praticamente não consigo imaginar como as coisas seriam se não fosse assim. Mas vejo também como faltam fundamentos para essa crença na realidade. Em todas as ações que vejo a minha volta, por mais que à primeira vista pareça haver alguém por trás, no fundo ela nada mais é que o resultado de uma infinidade de fatores. Com as ações desse corpo provavelmente ocorre o mesmo, por mais que não pareça.

Uma ótima semana para você.

Abraços.
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Re: Alguém para me guiar nesta busca?

Postby Viajante » Wed Dec 14, 2016 1:24 am

Boa noite Sandra!

Talvez seja algo bobo mas gostaria de compartilhar o que aconteceu há pouco com você. Estava meditando, e enquanto isso pensava em algo que sempre me intrigou: "Sempre entendi Enlightenment como o momento em que você percebe que você não é uma pessoa, mas outra coisa. Mas, sendo esse o caso, como a pessoa fica sabendo e passa a agir como se tivesse acordado? Por que ela simplesmente não segue a sua vida, sem saber o que aconteceu. As duas coisas se comunicam?!". Haha.. Eu sei, faz menos sentido ainda quando escrito :) Mas o ponto é que num dado momento cheguei a conclusão que obviamente as duas coisas não estão separadas. Enlightenment deveria ser o momento em que a pessoa percebe que esse corpo é apenas uma parte sua. Ela é o todo, e a ideia de uma pessoa separada, apenas um pensamento dentro desse todo.

Eu sei que tentar entender provavelmente não ajuda, pois não é algo passível de ser entendido, mas confesso que é quase inevitável. Ainda assim, onde quero chegar é que nesse momento meu coração disparou e não parava mais, difícil explicar, mas percebi que a própria experiência me distraiu. Minha atenção acabou indo para a experiência em si, e sei que não é esse o propósito disso tudo. Que as experiência são apenas distrações. E essa não foi a primeira vez que algo assim ocorreu.

Existe alguma forma de lidar melhor com esses momentos? Alguma forma de não se distrair com isso? Isso é algo para se lidar ou não faz diferença?

Muito obrigado! Um ótimo fim de semana para você!

Abraços.
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Re: Alguém para me guiar nesta busca?

Postby Canfora » Wed Dec 14, 2016 1:28 pm

Olá Viajante, bom dia. Bom trabalho com o exercício!
Engraçado como realmente existe em mim essa crença de que toda ação precisa ser realizada por algo. E essa crença é tão forte que praticamente não consigo imaginar como as coisas seriam se não fosse assim.
As coisas seriam como são. Não precisas de imaginar nada, basta observar. As coisas são como são :)
Mas vejo também como faltam fundamentos para essa crença na realidade. Em todas as ações que vejo a minha volta, por mais que à primeira vista pareça haver alguém por trás, no fundo ela nada mais é que o resultado de uma infinidade de fatores. Com as ações desse corpo provavelmente ocorre o mesmo, por mais que não pareça.
Se estenderes um braço e virares a palma da mão de um lado para o outro, parece que há alguém a fazer o que quer que seja? Existe uma ilusão de um eu a mover a mão? Esta ilusão pode ser vista, da mesma forma que é possível ver um arco iris ou uma miragem num deserto?
Enlightenment deveria ser o momento em que a pessoa percebe que esse corpo é apenas uma parte sua. Ela é o todo, e a ideia de uma pessoa separada, apenas um pensamento dentro desse todo.
Estás a tentar ter um tipo específico de experiência. Quando a única experiência que existe é esta que está a acontecer agora, tal como é (e não como pensamos que devia ser).

Neste momento, vez alguma evidência de que o que tu és está separado do todo? Há alguma fronteira, alguma separação, algum limite, entre o que parece ser o eu (o corpo) e o todo? Consegues tocar esta separação com um dedo? Vê-la? Ouvi-la?
Minha atenção acabou indo para a experiência em si, e sei que não é esse o propósito disso tudo.
Oh senhores, esse é o propósito! Como é que queres ver se o eu separado existe ou não? Tens de colocar a tua atenção na experiência em si! Onde é que é possível ver o que está presente ou que não existe determinada coisa? Não é na experiência em si? Nos pensamentos existe tudo e mais alguma coisa, como é que se pode confiar em pensamentos?
Que as experiência são apenas distrações.
As experiências são distrações ou as experiências - a experiência, porque é só uma... é a vida? O que é que há mais? Pensar, não é também uma experiência?
Existe alguma forma de lidar melhor com esses momentos? Alguma forma de não se distrair com isso? Isso é algo para se lidar ou não faz diferença?
Acontece algo. Pensamentos sobre esse algo acontecem. Consegues ter controlo sobre isto? Ou quando reparas no que se passa já passou? É possível mudar o que já aconteceu?

Abraço,
S


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