O que é real?

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Canfora
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Re: O que é real?

Postby Canfora » Wed Apr 13, 2022 3:19 pm

Viva Arthur,
Desculpe pela demora!
Não faz mal, é bom ter-te de volta :)
Então digo que sim, vejo meu corpo, que sinto como parte de mim. E se levantar e me olhar no espelho, me vejo “por inteiro”.
Sim, vemos o corpo. Se o corpo é o eu, porque é que dizes que o corpo é teu (meu corpo)? Onde está este eu a quem o corpo supostamente pertence?
É como se a própria pergunta que você (um eu) me faz, mostra que existe um eu: “consegues (tu) ver um eu?”.
Na linguagem existe um tu, um eu. Mas estes conceitos, tu e eu, não se referem a algo real. Da mesma forma que os conceitos Equador, universidade, unicórnio, não se referem a algo real.

Abraço :)
S

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arthurbac
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Re: O que é real?

Postby arthurbac » Thu Apr 14, 2022 2:30 am

Sim, vemos o corpo. Se o corpo é o eu, porque é que dizes que o corpo é teu (meu corpo)? Onde está este eu a quem o corpo supostamente pertence?
É verdade... o eu sou eu quem penso, quem olho pro corpo. Eu não consigo achar ele porque é como se fosse o que sou, onde estou, esse eu está. Onde está o eu que tem esse corpo? Onde eu estiver, conversando, pensando, rindo, chorando... Eu não acho ele porque ele é quem acha as coisas. Ele (eu) é que percebe a garrafa que está na minha frente e que tem capacidade de conversar aqui com você.
Na linguagem existe um tu, um eu. Mas estes conceitos, tu e eu, não se referem a algo real. Da mesma forma que os conceitos Equador, universidade, unicórnio, não se referem a algo real.
Muito bacana isso. É verdade. A palavra não é a coisa. Essa frase me deixou desconcertado, sem resposta.

----------------------------

Depois do que escrevi, dei uma parada e fui ler o fórum do TheVipZo123: me identifico com diversas coisas que vocês falaram lá, é como se eu pudesse me localizar pelos olhos, por onde enxergo o mundo, mas se eu apenas olhar, não tem um eu, tem apenas olhos. Eu também sinto uma apreensão de chegar o momento em que "não existo de maneira separada", embora os momentos que posso descrever em que a vida fluiu da melhor maneira foram os que eu simplesmente agi de acordo com o momento e com as coisas que se apresentavam, como se tudo funcionasse de maneira harmoniosa e não dependesse do meu esforço para valer, apenas que eu navegasse junto, sem resistência. Tenho receio também de perder a alegria da coisas, a paixão de um relacionamento, o prazer de uma relação sexual, de tudo ficar "flat" ao perceber que não existe mais um eu.

Vou citar algumas coisas que você escreveu no forum com ele para tentarmos avançar, estou me sentindo muito empacado:
Ora aqui está um pensamento comum e lógico, algo que aprendemos desde muito novos. Eu devo estar no corpo. Isto implica que dentro do corpo existe um pequeno eu, uma pessoa, uma entidade, muito provávelmente por trás dos olhos ou no peito.

Mas será que este eu pode ser encontrado dentro do corpo? Será este pensamento apenas um pensamento, sem fundo de verdade, ou será que o pensamento é a descrição de algo que é real, comprovável?

A forma de comprovar se existe um eu dentro do corpo ou que é o corpo é observando o corpo. Pensar sobre isto, não vale, tens mesmo de observar, de olhar para.

Quando olhas para o corpo está a ver um eu ou um corpo?

Quando vês uma perna, um braço, a pele, estás a ver uma perna, um braço, a pele ou um eu?
Eu não consigo achar esse eu como acho as outras partes, realmente não parece haver um eu encontrável. Mas quando penso, assumo que esse pensador ou esse ser pensante sou eu.
Estamos a ver se encontramos um eu real aqui e agora - uma coisa que é um eu, uma entidade separada do resto, do que aqui está, independente, sólida, permanente.

Eu estou a ver uma garrafa em cima de uma mesa. Como vejo a garrafa sei que ela existe. Posso agarrar na garrafa, olhar para ela, sentir a garrafa, usá-la para beber água. Se eu não pensar na garrafa ela continua aqui, presente.

Se um eu é real, tem se ser tão encontrável quanto uma garrafa. Tem de estar em algum lado neste momento presente e ter características que provam a sua existência.
Muito interessante isso. Me acende algo de diferente, mas que não sei descrever.
Quando estiveres a observar os pensamentos vê se consegues encontrar um pensador, uma entidade que pensa os pensamentos, a pensar pensamentos.
Essa também me pegou. Não acho o pensador, e eu achava (ou ainda acho) que esse pensador e esse ser que observava as coisas por meio da visão era eu.
Com os olhos fechados - foca-te nas histórias sobre o eu: eu sou isto, eu fiz aquilo, aconteceu-me isto, etc.
Pensa em coisas que te façam acreditar que o eu existe, torna o eu tão sólido, tão real quanto possível, até teres a certeza de que ele existe.

Depois foca-te no está aqui presente, nas evidências que te rodeiam e não são pensamentos: o que é possível ver, ouvir, tocar, cheirar, saborear.
Para finalizar, fiz esse exercício que você passou para ele. Legal que durante eu pensava nas coisas que eu era, baseado em minhas memórias e histórias, eu percebia logo que aquilo não era atual, presente, mas apenas um pensamento. Não era verdadeiro, mas um conto sobre o que eu achava que era. Incrível que quando tocou o despertador dos 10min, no mesmo instante a enfermeira me chamou para atender um paciente. Eu tenho percebido muito que não estou no controle da vida, e que as coisas acontecem livremente quando me ponho fora desse controle. O que é difícil ainda de perceber é essa ficção do eu enquanto existência, enquanto ser que observa as coisas e que percebe, por exemplo, que os pensamentos não sou eu de verdade.

Obrigado pela partilha e pela atenção! Até logo.

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Re: O que é real?

Postby Canfora » Thu Apr 14, 2022 4:25 pm

Viva Arthur e obrigada pelo teu post. Fico feliz em saber que pensaste sobre isto, leste a outra conversa e fizeste experiências.
Eu também sinto uma apreensão de chegar o momento em que "não existo de maneira separada", embora os momentos que posso descrever em que a vida fluiu da melhor maneira foram os que eu simplesmente agi de acordo com o momento e com as coisas que se apresentavam, como se tudo funcionasse de maneira harmoniosa e não dependesse do meu esforço para valer, apenas que eu navegasse junto, sem resistência.
Tenho receio também de perder a alegria da coisas, a paixão de um relacionamento, o prazer de uma relação sexual, de tudo ficar "flat" ao perceber que não existe mais um eu.
O que aconteceu comigo, e aquilo que vejo algumas pessoas partilharem, leva-me a pensar que o que tem tendência a acontecer é o oposto de flat. Não necessáriamente uma experiência apenas agradável, mas com a tendência para ser mais intensa do que o normal. Durante algum tempo é possível que tudo pareça mais cru, mais vivo, como se um filtro desaparecesse. De qualquer forma, estamos a especular, é impossível ter a certeza sobre como isto vai ser para ti. A tua experiência vai ser única. Semelhante à de muitos outros, mas única.

Falas sobre não existir de forma separada. Suponho que estejas a pensar na experiência de te sentires um com tudo? Esse tipo de experiência pode acontecer ou não mas, independentemente do tipo de experiência que estás a ter, é sempre possível confirmar se um eu existe. Dito de outra forma, o eu não existir é um facto, independente do tipo de experiência que estás a ter. Essa experiência de se sentir que se é um com tudo (que ao que aparece só acontece a alguns, por um tempo limitado) não é uma prova de que se realizou que o eu não existe.
Onde eu estiver, conversando, pensando, rindo, chorando... Eu não acho ele porque ele é quem acha as coisas. Ele (eu) é que percebe a garrafa que está na minha frente e que tem capacidade de conversar aqui com você.
Tenho a impressão de que falas do EU (há falta de uma palavra melhor, porque não é um eu) em vez de falares sobre o eu. O Eu que sabe que existe porque obviamente existe.
Acho que provavelmente deviamos falar sobre a diferença entre o Eu e o eu, porque me parece que isto pode estar a dificultar a tua compreensão, mas para isso gostava que tentasses uma experiência primeiro.
Não sei se percebes bem inglês?
No site abaixo tens a descrição da experiência que gostava que fizesses. Há um vídeo logo no início a explicar como se faz, que está em inglês.
Faz a experiência e diz-me como correu se faz favor.

link para página em inglês https://www.headless.org/experiments/pointing.htm

link para a tradução https://www-headless-org.translate.goog ... r_pto=wapp

Abraço,
S

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Re: O que é real?

Postby arthurbac » Fri Apr 15, 2022 9:13 pm

Oi! Sempre uma delícia ver sua atenção e dedicação com a gente que está em "busca dessa liberdade" que na verdade é a constatação de que já somos e sempre fomos e seremos livres.
Acho que provavelmente deviamos falar sobre a diferença entre o Eu e o eu, porque me parece que isto pode estar a dificultar a tua compreensão, mas para isso gostava que tentasses uma experiência primeiro.
Era isso que eu precisava ouvir! Porque existe algo que observa tudo, que é presente no momento, que está em presença. E com certeza não é o Arthur das histórias ou das memórias.

No site abaixo tens a descrição da experiência que gostava que fizesses. Há um vídeo logo no início a explicar como se faz, que está em inglês.
Faz a experiência e diz-me como correu se faz favor.
Bom, eu vi a ponta do meu nariz quando virei para mim. Então quando ele fala "Looking in to the place where others see my face, I find no colour or shape here.", me deu uma travada porque avistei a ponta do meu nariz e lembrei de meu rosto no espelho.Foi aí então que eu acho que entendi para o que ele tava apontando, como se fosse: "ok, então se olha para seu nariz, ou se for no espelho e apontar para o seu rosto, tudo isso é definível e tem forma, cor etc, mas e ao olhar para esse Sujeito que olha, esse Eu que olha?". E aí eu percebi, esse Eu que olha não tem nenhuma forma, é vazio. Bem legal!

Abraços!! :*

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Re: O que é real?

Postby Canfora » Sat Apr 16, 2022 1:09 pm

Viva Arthur,
E aí eu percebi, esse Eu que olha não tem nenhuma forma, é vazio.
Sim, essa também é a minha experiência quando foco a atenção no que está a uma distância zero de mim mesma. Podemos dizer que esse Eu que não é nem um Eu nem um eu é o mais próximo que conseguimos chegar quando queremos ver aquilo que somos. Acho que não existe experiência mais direta do que essa. O difícil é encontrar forma de a descrever, porque a linguagem é tão limitada e estamos a tentar descrever algo que não é um algo, uma coisa, que não tem características aparentes.

Aqui no fórum o objetivo é ver que o eu sólido, independente, permanente não existe. Ou seja, é ver que não é possível encontrar um eu real, aqui e agora, presente.

Consegues perceber a diferença entre aquilo que encontraste (ou não encontraste) quando olhaste para o sítio onde supostamente está a tua cara e o eu, a entidade, que os pensamentos insistem que é real?

Boa Páscoa, abraço,
S

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Re: O que é real?

Postby arthurbac » Sat Apr 16, 2022 2:05 pm

Consegues perceber a diferença entre aquilo que encontraste (ou não encontraste) quando olhaste para o sítio onde supostamente está a tua cara e o eu, a entidade, que os pensamentos insistem que é real?
Numa metáfora, é quase como se o eu separado fosse uma história, existe porque é contada, mas o “Eu” ou esse substrato da nossa existência é o contador da história, é o espaço que permite que essa e tantas outras histórias existam. Acho que falar que é o contador da história não explica bem o que queria falar, mas é o que você falou, tudo que tentarmos falar será limitado, então jamais será possível limitar o ilimitado, falar da existência.

A diferença é clara, e olhar diretamente para os pensamentos e como eles não são verdadeiros, presentes, realidade no aqui e agora é algo que sinto que está claro para mim. Questiono se você pode me ajudar mais a enxergar, se assim for real, quanto a não estar separado, independente.

Pois eu e você temos nossos “eus”, nossas identificações, condicionamentos etc. Mas também me parece que você e eu podemos acessar esse vazio que parece ser primordial, a subsistência de onde tudo nasce, correto? Mas você pode “experimentar”, se é que podemos chamar isso de experiência, isso aí em Portugal (acredito que more aí hehe) e eu aqui no Maranhão, estado do Brasil. Então me parece haver uma separação, ao menos física, que não permita que nossos dedos se toquem agora por exemplo, embora eu possa apenas imaginar que essa realização do vazio esteja além do espaço - mas mesmo assim se você vivencia isso aí e eu aquiX estaremos “corporalmente” separados.

Espero que tenha deixado ao menos um pouco claro essa dúvida!

Abraços!!! Feliz Páscoa 😚

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Re: O que é real?

Postby Canfora » Sun Apr 17, 2022 1:23 pm

Viva Arthur e Feliz Páscoa!
Então me parece haver uma separação, ao menos física, que não permita que nossos dedos se toquem agora por exemplo, embora eu possa apenas imaginar que essa realização do vazio esteja além do espaço - mas mesmo assim se você vivencia isso aí e eu aquiX estaremos “corporalmente” separados.
Bom e o que é que isso significa para ti? Achas que a distância, a fisicalidade e a diferença provam que um eu separado existe?

Abraço,
S

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Re: O que é real?

Postby arthurbac » Mon Apr 18, 2022 3:41 am

Bom e o que é que isso significa para ti? Achas que a distância, a fisicalidade e a diferença provam que um eu separado existe?
O que eu consegui retirar dessa sua pergunta foi isso: quando vou pra esse Eu vazio, não é que ele esteja separado ou unido de você que está longe de mim. É como se não cabeasse descrever localidade para isso que estamos tentado perceber diretamente. E aí isso me fez ver isso: existe sim uma distância que separa meu corpo do seu, assim como meu corpo da televisão etc, mas esse conceito não se aplica para à Existência, por essa mesma razão: nenhum conceito se aplica á Existência! É indefinível, ilimitada…

Interessante… é como se me mostrasse isso: ninguém está negando que a distância entre duas coisas possa ser medida, como quilômetros separando meu “eu” e “você”, mas O Que percebe tudo não se limita por isso. E aí então eu não nego que estou aqui no Maranhão agora, mas isso não confina ou delimita a consciência, a não ser que assim ela se permita ser limitada.

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Re: O que é real?

Postby Canfora » Mon Apr 18, 2022 11:35 am

Viva Arthur,

Gosto do uso da palavra Existência neste contexto. O que estás a dizer é que a Existência apesar de diferênciada é universal, está em tudo?

Vou usar-te como cobaia para uma experiência nova :)

Suponho que tens telemóvel e que podes usar o telemóvel para tirar fotografias.

Queria que respondesses a algumas questões procurando a resposta na observação das fotos - ou seja, tiras fotos ao que te rodeia, com o objetivo de responderes às 4 perguntas abaixo e mais tarde olhas para as fotos para achares evidências diretas para responderes ao que está a ser perguntado. Acho que não vais ter dificuldade em entender a ideia, mas se tiveres dúvidas diz.

Tenta fotografar:
  • - um eu real

    - uma existência separada de ti

    - pensamentos

    - sensações/emoções
Quando estás a olhar para uma foto estás a ver uma imagem estática do que existe, tal como era naquele momento. Usando a observação pura do que podes ver nas imagens da realidade responde às seguintes perguntas:
  • - é possível encontrar um eu no que estás a ver?

    - é possível ver separação entre o que existe?

    - é possível ver pensamentos?

    - é possível ver sensações/emoções?
Partilha as tuas descobertas.

Abraço,
S

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Re: O que é real?

Postby arthurbac » Mon Apr 18, 2022 3:33 pm

Bom dia!!
Queria que respondesses a algumas questões procurando a resposta na observação das fotos - ou seja, tiras fotos ao que te rodeia, com o objetivo de responderes às 4 perguntas abaixo e mais tarde olhas para as fotos para achares evidências diretas para responderes ao que está a ser perguntado. Acho que não vais ter dificuldade em entender a ideia, mas se tiveres dúvidas diz.

Tenta fotografar:
- um eu real

- uma existência separada de ti

- pensamentos

- sensações/emoções
Quando estás a olhar para uma foto estás a ver uma imagem estática do que existe, tal como era naquele momento. Usando a observação pura do que podes ver nas imagens da realidade responde às seguintes perguntas:
- é possível encontrar um eu no que estás a ver?

- é possível ver separação entre o que existe?

- é possível ver pensamentos?

- é possível ver sensações/emoções?
Partilha as tuas descobertas.
Tirei as fotos, primeiro vou tentar descrever como elas ficaram: a primeira tirei uma selfie, na segunda tirei foto de uma plantinha que estava na mesa ao lado, na terceira não sabia o que tirar mas instantaneamente levei o celular a tirar uma foto da cabeça, assim como na quarta que me levou a tirar uma foto do peito.

Agora vou responder as perguntas?

1) Eu vejo uma pessoa, face, tronco etc. Mas o eu só vejo quando sei sobre o eu. Da mesma forma é possível imaginar: se alguém da Índia olhasse essa foto com "meu" rosto, ela veria uma pessoa e todas as suas características, mas não veria o Arthur, porque ela não tem gravado o repertório de informações que eu tenho para definir esse rosto que eu vejo como o Arthur. Então não há um eu verdadeiro. Há apenas o que posso ver imparcialmente: cabelos, musculos, dentes, pele...

2) É possível ver separação no que existe. Posso apontar para onde a planta está e medir em centímetros nossa distância. Mas ao olhar com mais "paz", num estado mais próximo do vazio, ou com menos pensamentos sobre a planta, simplesmente parece que separação não importa, ou como se a distância em medida de centímetros não separasse a impressão entre a planta e a observação dela.

3 e 4) Não consigo ver os pensamentos ou emoções. Embora possa sentí-los quando presentes.


Obrigado! Aguardo você... Abraços!

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Re: O que é real?

Postby Canfora » Tue Apr 19, 2022 10:32 am

Viva Arthur, obrigada por teres feito essa experiência.
1) Eu vejo uma pessoa, face, tronco etc. Mas o eu só vejo quando sei sobre o eu. Da mesma forma é possível imaginar: se alguém da Índia olhasse essa foto com "meu" rosto, ela veria uma pessoa e todas as suas características, mas não veria o Arthur, porque ela não tem gravado o repertório de informações que eu tenho para definir esse rosto que eu vejo como o Arthur. Então não há um eu verdadeiro. Há apenas o que posso ver imparcialmente: cabelos, musculos, dentes, pele...
Acho que a tua história sobre o corpo é diferente da minha. Pensas que o corpo é uma pessoa e eu penso que o corpo é um corpo, nas tuas palavras "cabelos, musculos, dentes, pele...".

Não compreendo onde é que vês um sujeito, uma pessoa. Quando olhas para a imagem vês uma pessoa ou um corpo?
2) É possível ver separação no que existe. Posso apontar para onde a planta está e medir em centímetros nossa distância. Mas ao olhar com mais "paz", num estado mais próximo do vazio, ou com menos pensamentos sobre a planta, simplesmente parece que separação não importa, ou como se a distância em medida de centímetros não separasse a impressão entre a planta e a observação dela.
Ok, separação = distância e muito provavelmente diferença, compreendo o que queres dizer. O que eu noto quando olho para o que está aqui é que só posso assumir que existe separação se começar a pensar. Sem pensamentos, sem o conceito de separação, a questão de existir ou não separação não se coloca. Isto existe independentemente das minhas ideias sobre se é um conjunto de objetos separados ou um todo.
3 e 4) Não consigo ver os pensamentos ou emoções. Embora possa sentí-los quando presentes.
Sim, sem dúvida.

Fecha os olhos e procura encontrar os teus limites, um sítio específico onde o eu começa e acaba. Com os olhos fechados, onde é que terminas e onde é que o mundo começa? Com os olhos fechados, encontras uma fronteira entre a pele e as roupas, uma separação, ou apenas uma espécie de sensação? Quando abres os olhos, o que é que acontece? Existe um “você” a olhar por dois buracos, na tua cabeça? Existe um eu a observar? Ou o que é possível ver está apenas aqui, sem limites?

Abraço,
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Re: O que é real?

Postby arthurbac » Tue Apr 19, 2022 1:53 pm

Acho que a tua história sobre o corpo é diferente da minha. Pensas que o corpo é uma pessoa e eu penso que o corpo é um corpo, nas tuas palavras "cabelos, musculos, dentes, pele...".

Não compreendo onde é que vês um sujeito, uma pessoa. Quando olhas para a imagem vês uma pessoa ou um corpo?
Acho que talvez pensemos parecido na verdade. Por exemplo, se olho a foto de Shenna da Inglaterra, mas nem sei o nome dela, eu estou vendo apenas a foto de um rosto etc. Só assumo que o rosto ou o corpo é a pessoa quando tenho pensamentos e informações sobre o que ela foi e atribuo isso ao corpo. Então se eu também olhar para o meu rosto sem as informações sobre quem o Arthur é, aquilo é só um rosto, como sempre foi.
Ok, separação = distância e muito provavelmente diferença, compreendo o que queres dizer. O que eu noto quando olho para o que está aqui é que só posso assumir que existe separação se começar a pensar. Sem pensamentos, sem o conceito de separação, a questão de existir ou não separação não se coloca. Isto existe independentemente das minhas ideias sobre se é um conjunto de objetos separados ou um todo.
Isso mesmo, você conseguiu expor bem mais claro. Se não houver nada entre a observação e o observado, ou seja, se não houver pensamentos, julgamentos... então não há também separação, isso não se torna mais uma questão, justamente porque era um pensamento sobre se estava junto ou separado, ou quão distante estavam. Como se não houvesse diferença se observo a planta a centímetros de distância do meu olho ou a nuvem a quilômetros, ambas se apresentam e estão presentes diretamente quando eu observo.
Fecha os olhos e procura encontrar os teus limites, um sítio específico onde o eu começa e acaba. Com os olhos fechados, onde é que terminas e onde é que o mundo começa? Com os olhos fechados, encontras uma fronteira entre a pele e as roupas, uma separação, ou apenas uma espécie de sensação? Quando abres os olhos, o que é que acontece? Existe um “você” a olhar por dois buracos, na tua cabeça? Existe um eu a observar? Ou o que é possível ver está apenas aqui, sem limites?
Legal! Quando fecho os olhos, o que antes estabelecia como limite que separava o eu do não-eu some. A pele não delimita mais. Ainda existe uma sensação sim se olhar por dois buracos, mas quando deixo de focar nesse pensamento, isso não parece mais tão real.

Nesse momento penso assim: um indivíduo que não enxerga e aprende a se locomover pelo tato, usando o limite de sua pele para poder mover-se e não acidentar-se, como ficaria isso? Pois existe um ser humano que anda e que, por não ter a visão, usa do tato para não ferir seu corpo. Isso me aparece depois que penso que meu corpo não me delimita, como um contraponto a essa percepção. Gostaria de saber o que percebes sobre isso.

Obrigado pela conversa! Abraços.

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Re: O que é real?

Postby Canfora » Tue Apr 19, 2022 5:22 pm

Viva Arthur,
Nesse momento penso assim: um indivíduo que não enxerga e aprende a se locomover pelo tato, usando o limite de sua pele para poder mover-se e não acidentar-se, como ficaria isso? Pois existe um ser humano que anda e que, por não ter a visão, usa do tato para não ferir seu corpo. Isso me aparece depois que penso que meu corpo não me delimita, como um contraponto a essa percepção. Gostaria de saber o que percebes sobre isso.
Estás a perguntar se um cego precisa de ter a noção dos seus limites para se mover sem se aleijar? Suponho que sim, tal como nós. Quando me levanto durante a noite tenho de usar as mãos para me orientar, apesar de conhecer o sítio onde estou.

A noção dos nossos limites físicos é necessária e normal. Achas que isso significa que um eu real e separado existe?

Abraço,
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Re: O que é real?

Postby arthurbac » Tue Apr 19, 2022 6:08 pm

Estás a perguntar se um cego precisa de ter a noção dos seus limites para se mover sem se aleijar? Suponho que sim, tal como nós. Quando me levanto durante a noite tenho de usar as mãos para me orientar, apesar de conhecer o sítio onde estou.

A noção dos nossos limites físicos é necessária e normal. Achas que isso significa que um eu real e separado existe?
Isso que perguntei mesmo… porque então se falamos que nós, cegos ou não, conhecemos nossos limites para poder nos locomovermos e outras habilidades, então sim, existe o corpo que conhece “seu” limite e que é separado do ambiente e se bater forte numa bancada, por exemplo, se machucará. E se então for só o corpo que conhece seu limite e atua de acordo com ele em relação a outros corpos (ambiente, bancada etc), e não um eu de verdade, quem é que anima esse corpo, quem dá vida a esse corpo, quem é essa existência que anda, respira e conhece seus limites?

Obrigado pela resposta tão rápida! :*

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Re: O que é real?

Postby Canfora » Wed Apr 20, 2022 1:54 pm

Viva Arthur,
existe o corpo que conhece “seu” limite e que é separado do ambiente e se bater forte numa bancada, por exemplo, se machucará.
Essa é uma das muitas explicações possíveis.
É um ponto de vista.
É uma história sobre o como as coisas são.

É possível encontrar justificações falando sobre o sistema locomotor e as suas funções, sobre neurologia, sobre se o corpo tem consciência, sobre estarmos numa matriz e isto ser tudo uma simulação, sobre um eu superior que mexe os cordelinhos das nossas vidas (incluindo o corpo), etc, etc, etc.

Todos temos teorias, ideias, pensamentos sobre o porque é que as coisas são como são.

Mas quando observamos é possível verificar se as nossas teorias estão corretas?

Estou a ver as minhas mãos a mexerem-se, os dedos a tocar em teclas.

São as mãos que fazem com que o movimento aconteça?

Talvez si, talvez não. Na minha opinião, é impossível chegar a uma resposta.

Mexe uma das tuas mãos. O que é que vês a causar o movimento?

Abraço,
S


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