Sim, vemos o corpo. Se o corpo é o eu, porque é que dizes que o corpo é teu (meu corpo)? Onde está este eu a quem o corpo supostamente pertence?
É verdade... o eu sou eu quem penso, quem olho pro corpo. Eu não consigo achar ele porque é como se fosse o que sou, onde estou, esse eu está. Onde está o eu que tem esse corpo? Onde eu estiver, conversando, pensando, rindo, chorando... Eu não acho ele porque ele é quem acha as coisas. Ele (eu) é que percebe a garrafa que está na minha frente e que tem capacidade de conversar aqui com você.
Na linguagem existe um tu, um eu. Mas estes conceitos, tu e eu, não se referem a algo real. Da mesma forma que os conceitos Equador, universidade, unicórnio, não se referem a algo real.
Muito bacana isso. É verdade. A palavra não é a coisa. Essa frase me deixou desconcertado, sem resposta.
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Depois do que escrevi, dei uma parada e fui ler o fórum do TheVipZo123: me identifico com diversas coisas que vocês falaram lá, é como se eu pudesse me localizar pelos olhos, por onde enxergo o mundo, mas se eu apenas olhar, não tem um eu, tem apenas olhos. Eu também sinto uma apreensão de chegar o momento em que "não existo de maneira separada", embora os momentos que posso descrever em que a vida fluiu da melhor maneira foram os que eu simplesmente agi de acordo com o momento e com as coisas que se apresentavam, como se tudo funcionasse de maneira harmoniosa e não dependesse do meu esforço para valer, apenas que eu navegasse junto, sem resistência. Tenho receio também de perder a alegria da coisas, a paixão de um relacionamento, o prazer de uma relação sexual, de tudo ficar "flat" ao perceber que não existe mais um eu.
Vou citar algumas coisas que você escreveu no forum com ele para tentarmos avançar, estou me sentindo muito empacado:
Ora aqui está um pensamento comum e lógico, algo que aprendemos desde muito novos. Eu devo estar no corpo. Isto implica que dentro do corpo existe um pequeno eu, uma pessoa, uma entidade, muito provávelmente por trás dos olhos ou no peito.
Mas será que este eu pode ser encontrado dentro do corpo? Será este pensamento apenas um pensamento, sem fundo de verdade, ou será que o pensamento é a descrição de algo que é real, comprovável?
A forma de comprovar se existe um eu dentro do corpo ou que é o corpo é observando o corpo. Pensar sobre isto, não vale, tens mesmo de observar, de olhar para.
Quando olhas para o corpo está a ver um eu ou um corpo?
Quando vês uma perna, um braço, a pele, estás a ver uma perna, um braço, a pele ou um eu?
Eu não consigo achar esse eu como acho as outras partes, realmente não parece haver um eu encontrável. Mas quando penso, assumo que esse pensador ou esse ser pensante sou eu.
Estamos a ver se encontramos um eu real aqui e agora - uma coisa que é um eu, uma entidade separada do resto, do que aqui está, independente, sólida, permanente.
Eu estou a ver uma garrafa em cima de uma mesa. Como vejo a garrafa sei que ela existe. Posso agarrar na garrafa, olhar para ela, sentir a garrafa, usá-la para beber água. Se eu não pensar na garrafa ela continua aqui, presente.
Se um eu é real, tem se ser tão encontrável quanto uma garrafa. Tem de estar em algum lado neste momento presente e ter características que provam a sua existência.
Muito interessante isso. Me acende algo de diferente, mas que não sei descrever.
Quando estiveres a observar os pensamentos vê se consegues encontrar um pensador, uma entidade que pensa os pensamentos, a pensar pensamentos.
Essa também me pegou. Não acho o pensador, e eu achava (ou ainda acho) que esse pensador e esse ser que observava as coisas por meio da visão era eu.
Com os olhos fechados - foca-te nas histórias sobre o eu: eu sou isto, eu fiz aquilo, aconteceu-me isto, etc.
Pensa em coisas que te façam acreditar que o eu existe, torna o eu tão sólido, tão real quanto possível, até teres a certeza de que ele existe.
Depois foca-te no está aqui presente, nas evidências que te rodeiam e não são pensamentos: o que é possível ver, ouvir, tocar, cheirar, saborear.
Para finalizar, fiz esse exercício que você passou para ele. Legal que durante eu pensava nas coisas que eu era, baseado em minhas memórias e histórias, eu percebia logo que aquilo não era atual, presente, mas apenas um pensamento. Não era verdadeiro, mas um conto sobre o que eu achava que era. Incrível que quando tocou o despertador dos 10min, no mesmo instante a enfermeira me chamou para atender um paciente. Eu tenho percebido muito que não estou no controle da vida, e que as coisas acontecem livremente quando me ponho fora desse controle. O que é difícil ainda de perceber é essa ficção do eu enquanto existência, enquanto ser que observa as coisas e que percebe, por exemplo, que os pensamentos não sou eu de verdade.
Obrigado pela partilha e pela atenção! Até logo.