Ola,
Obrigado pela resposta.
Se bem te percebo, o que dizes é que apesar de compreenderes aquilo que é dito no artigo, é só uma compreensão inteletual, não é uma experiência. O meu papel aqui como guia é apontar-te o caminho para esta experiência :)
É predominantemente uma compreenção intelectual. Se eu pergunto a mim
mesmo o que é o "eu", vem-me a pergunta o que essa voz dentro da minha
cabeça que pergunta o que é o eu. Há uma sensação de um pequeno "gap" de
um espaço entre quem pergunta o que é o "eu" e que observa quem
pergunta. No último ano tenho sentido maiores momentos de persistência
do foco nas atividades diárias, estabelecendo mindfulness. E as vezes me pego apenas no
"momento", sem o eterno blá-blá-blá dentro da minha cabeça. Essa voz
dentro da minha cabeça diminuiu muito desde o início da minha prática
meditativa. Mas ainda vou muito para o "mundo da lua".
Sim, a percepção de ser um eu, a sensação, o conjunto de experiências a que chamamos "eu" é real. Existe.
E o eu?
O eu ou ego termina por se esse conjunto de sensações e experiências
que formam o eu. O meu carro existe e é um conjunto de peças
metálicas corroídas pelo tempo e sem grande valor de mercado. Mas as
peças sozinhas não são o carro. O carro não existe como uma entidade
autonôma, emerge do conjunto das peças. Eu não sou essa coceira no meu
braço, eu não sou esse som que chega agora aos ouvidos, eu não sou as
várias sensações que me chegam a consciência. Eu aponto para as
sensações que chegam a consciência e as separo dessa sensação de
eu. Mas o que sou eu ??? Sensações, memórias, volição . . . Ainda
conceitos, onde esta a fragrância da manga ?
Se olhares para o que está aqui e agora... consegues ver um eu? Sentir um eu? Ouvir um eu? Experimentar um eu da mesma maneira que é possível experimentar uma manga?
O que é que é experimentado neste momento que seja o eu? Se tivesses
que apontar para este eu, para onde é que apontavas?
Se tivesse de apontar, apontava para o busto, para a face. Não por acaso a
representação do busto esculpido para retratar alguém. O corpo incorpora o eu.
Não consigo experimentar o "eu" como experimento uma manga. Mas há
sensações físicas que parecem "trazer" ou "fazer" o ego
incorporar, tomar corpo. Um exemplo concreto. Fui submetido a uma cirurgia
ortopédica no meu pé há duas semanas. É uma coisa simples e parece
estar indo bem, mas ainda assim pode ser doloroso no local da
cirurgia. Pois bem bati o pé operado na mesa da cozinha. Uma onda de dor
intensa subiu dentro de mim, não havia dúvida da existência de alguém
que sentia muita dor naquele momento. Outras experiências desagradáveis, físicas ou
psíquicas também tem esse efeito incorporar alguém que sofre e que
quer se ver livre do incômodo.
É tudo na nossa cabeça. Tudo vem para a consciência, e ali vira o que
vira. Sei que o ego não existe no mundo físico. Mas manifesta-se, sofre, chora, vive e
celebra. Como ver o que está por trás desse personagem que agora te
escreve ? O melhor resposta que eu encontrei vem do: Satipaṭṭhāna
Sutta ou discurso para o estabelecimento da atenção plena (
http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN10.php#R15). Basicamente
é: preste atenção. Atenção ao que manifesta-se no campo da
consciência.
Com gratitude,
Guga