Tudo ainda meio estranho, meio surreal.
Ainda fico refletindo se é isso mesmo porque é uma concepção simples e natural, mas aparentemente é difícil de assimilar, de cair a ficha...
Você disse narrativa, mas na minha interpretação aconteceram uma série de coisas improváveis, que num primeiro momento foram muito ruins, mas que depois me fizeram vislumbrar algo que será positivo para mim.O que você percebeu é fundamental: as situações se desenrolaram, e no desenrolar, algo aconteceu que beneficiou a narrativa daquele momento. Isso pode ser chamado de "coincidência", mas mesmo isso é uma etiqueta mental.
Se você olhar para a experiência direta, o que aconteceu no feriado seguiu, de fato, algum plano pré-definido por algo “fora”, ou os eventos simplesmente aconteceram?
Não, as coisas não seguiram um plano pré definido... Simplesmente aconteceram.
Acredito que seja um hábito da mente, ainda buscando aquele mecanismo do aqui se paga aqui se recebe, quem faz o bem recebe o bem ... E coisas do tipo...Essa necessidade de ancorar o fluxo dos eventos em algo tangível e previsível é realmente necessária, ou é apenas um hábito da mente buscando segurança?
Sim, pode sim... Agora tudo parece mais incerto ...Será que pode haver simplesmente o reconhecimento de que o que acontece, acontece, sem necessidade de justificar ou explicar com base em algo maior ou menor?
Meu amigo, como é difícil abrir mão disso ... Mas o que você está falando é verdade.Não diria que é uma ideia, talvez é um reconhecimento. Você não precisa "deixar" que seja, porque já é. É apenas a mente que busca "permitir" ou "controlar" o fluxo, enquanto, na verdade, tudo já está fluindo sem esforço.
De modo algum...Observe o impulso de controlar ou justificar, e veja se esse impulso realmente é necessário para que os eventos continuem a acontecer!
Não existe. Tudo acontece espontaneamente.Quando você está completamente absorvido no que acontece , seja nas situações intensas (como essa do feriado) ou nos papéis do dia a dia. Existe mesmo um Eu que "entra" ou "sai" de cena? Ou tudo acontece espontaneamente, como sempre foi?
Eu estou expressando meu inconformismo com o comportamento "inadequado" (no meu ponto de vista) de uma outra pessoa. Essa indignação só incomoda, não resolvendo a situação, me afastando da paz e da tranquilidade.Entendo de onde vem essa pergunta, mas o ponto aqui não é sobre conformismo, mas sobre clareza. Vamos adentrar um pouco mais.
Quando você se indigna, o que está realmente acontecendo? Essa indignação resolve a situação ou apenas reforça a ideia de que algo precisa ser diferente para que você fique em paz?
Traz muito mais desequilíbrio, aumentando o desconforto.Se a mente cria uma história em cima do carro mal estacionado, será que reagir indignado está trazendo mais equilíbrio ou apenas alimentando o desconforto?
Ainda é um pouco difícil para mim, mas estou me habituando a ver a realidade imediata como a única plausível, independente de conceito de certo ou errado, bom ou mal ...A coisa está ali, acontecendo e pronto.Agora, quanto a não julgar:
Você consegue perceber o carro na vaga errada, reconhecer isso como um fato, e ainda assim deixar de lado a necessidade de atribuir certo ou errado?
Isso é muito profundo e intenso, May, e acho que era mais fácil pensar desta maneira com a lógica de haver um Deus que a tudo permeia, e que cada ação teria uma reação.A ausência de julgamento não é uma passividade ou conformismo, mas um reconhecimento de que o fluxo da vida inclui TUDO, até o carro na vaga errada.
Estou tendo um pouco de dificuldade em aceitar este fluxo livre e natural, desprovido de certo ou errado porque ele me parece meio ilógico ... Estaria o universo andando sem uma lógica, sem um "esquema", apenas se manifestando de forma descontrolada e arbitrária???
Boa pergunta... Me parece que se eu não me identificar com o pensamento de julgamento, ficarei mais livre, mais solto.Será que, se você não se identificar com o ‘pensamento de julgamento’, você pode agir ou não agir, com a mesma leveza?
Eu acredito que se eu assimilar a concepção da não dualidade, essa necessidade simplesmente desaparecerá... Por que eu não acredito que ela possa ser preenchida.Você acha que essa necessidade de segurança é algo que realmente pode ser preenchido?
Encontro a realidade imediata acontecendo. Não, não há nada incompleto... É só a mente sussurrando.Quando você observa diretamente o que acontece agora, sem buscar segurança em ideias ou histórias, o que encontra? Há algo incompleto nesse momento ou é apenas a mente pedindo por garantias?
Mais uma história da mente. Uma espécie de mecanismo para atrapalhar e causar dúvidas e desânimo.E esse “reconhecimento” depende mesmo de um processo longo, ou a sensação de que levará tempo é apenas mais uma história da mente?
Neste exato momento, não.Experimente olhar agora, sem pressa:
O que está presente neste instante precisa de algo adicional para ser completo?
Não sei, May... MAs pode ser sim.O que você chama de “processo” pode ser simplesmente o hábito da mente de adiar o reconhecimento do que já é.
Me parece ser algo além, que está observando e assistindo...Aqui voce mencionou algo fundamental: a identificação com o personagem e até o orgulho por ele. Vamos olhar mais de perto:
Quando você diz que gosta do seu personagem e sente orgulho dele, quem é esse “você” que está gostando ou sentindo orgulho? É o próprio personagem apreciando a si mesmo? Ou há algo além, que está apenas observando tudo isso acontecer?
Rs... Rapazzzzz... Isso é difícil... Me parece ser um movimento no fluxo.O que está resistindo? Existe mesmo algo sólido resistindo, ou a resistência é apenas mais um movimento natural dentro do fluxo?
É verdade ... E isso acontecia muito comigo, principalmente quando era mais jovem e assistia a filmes intensos... Não deixo de ser o observador.A identificação com o personagem é como assistir a um filme e se perder na história. Mas, mesmo quando você está imerso no filme, você deixa de ser o observador?
Entendo... Desculpe usar a expressão mas está parecendo uma lavagem cerebral literal... Digo uma limpeza...rs... Vou experimentar!!!Quando a resistência aparece, pode ser vista também como parte do filme, algo surgindo e desaparecendo por si só, sem necessidade de lutar contra ela.
Não há... Mais um movimento.Agora, aqui e agora, sem criar uma história sobre fases ou personagens, onde está essa resistência? Quando você olha diretamente, ela tem forma, substância, ou é apenas mais um movimento que passa?
Tudo em constante mudança, como um rio interminável...Você diz que está "parado, quietinho", mas, se observar de forma direta, o que exatamente está parado? O coração bate, a respiração acontece, pensamentos surgem e desaparecem. Mesmo a sensação de estar "quieto" é um movimento percebido. Será que existe realmente algo fixo, ou tudo está em constante mudança, assim como os "mil e um fenômenos" que você descreveu no universo?
Se formos analisar cientificamente, tudo é energia E tudo está no universo... E tudo é o universo... Não tenho a menor ideia onde começa e termina essa unidade, porque me parece algo bastante ilusório.Se você olhar para o corpo, de onde ele veio? O ar que você respira, a comida que o mantém, até os átomos que o compõem, tudo vem de “fora”, do que chamamos de "universo". Onde exatamente começa e termina essa unidade que você acredita ser?
Ela se manifesta através das minhas percepções deste universo... Do meu ver, escutar, sentir, cheirar ... Daí vem esta noção de separação... Mas ao mesmo tempo sei que estas percepções vêm a mim, mas vem a todos também... E afinal de contas o que vai à quem??? É tudo meio confuso ... Percepções são impulsos, mas nós também somos impulsos...Agora, essa sensação de ser separado, como ela se manifesta? É um pensamento? Uma sensação no corpo? Algo mais? E, olhando para isso diretamente, sem criar uma nova história, pode encontrar a tal linha de separação entre você e o universo?
Sem sombra de dúvida.Tentar parar um pensamento geralmente gera mais pensamentos. Isso acontece porque o próprio esforço de "parar" é apenas outro pensamento ou desejo surgindo na mente. É como tentar apagar fogo jogando mais lenha: o impulso de controlar cria mais movimento, não menos. A dica é apenas observá-los, dessa forma, como você mencionou, eles vão embora.
Pensamentos e sensações, nada de concreto.Essa resistência, já olhou para ela de perto? O que é essa resistência, de verdade? É só um monte de pensamentos e sensações dizendo “não”? Tem alguma substância nisso ou é só fumaça?
Não preciso imaginar, mas me seria muito útil poder sentir, mesmo que fosse de uma forma intuitiva.Quanto a “ver o mundo como parte da mesma presença”, precisa imaginar isso? Ou é só um pensamento agora dizendo que existe separação? Onde, exatamente, está essa linha que separa você do que está acontecendo?
É um pensamento que gera insegurança em relação a existir separação ou não ... Tipo assim: "você não acha muita loucura achar que tudo é um"...
Não sei se existe tal linha.
É o que eu gostaria... Uma experiência especial ... Um clique que seja ... uma luz...Não sei se vai existir este algo diferente do que já está aqui... Quem está esperando sou eu... o pequeno eu que ainda não se encontrou no EU maior.E sobre “sentir de verdade”, você acha que vai aparecer uma experiência especial, algo diferente do que já está aqui? Quem está esperando isso???
Sim, como tudo que compõem a minha sensação de individualidade... Mais um pensamento...Isso nao é só mais um pensamento te dizendo que algo falta???
Aparentemente ele ainda está no meu corpo, nos meus pensamentos ... Não, nunca esteve no controle de nada, porque nem sei se existe.Agora, indo direto ao ponto:
Onde está esse “Eu” que parece separado? Procure, aqui e agora. Alguma vez ele já esteve no controle de alguma coisa?
Franchi

