Olá,
Quando você “vê” o céu e as nuvens, o próprio ato de ver já não é, ele mesmo, aquilo que você chama de consciência?
Sim, se não é acompanhado do conhecer, do ser consciente do ver e do visto, o ver não existe. Percebo o que você quer mostrar. Concordo que não há percepão, sensação, sentimento, volição, pensamento etc. sem consciência. Nesse sentido, é verdade que a consciência acompanha e forma uma unidade com isso tudo. O meu ponto é que eu posso ser consciente independentemente de perceber, sentir, pensar etc. As nuvens fazem parte do céu, não existem sem ele, mas o céu não precisa das nuvens para existir.
Há realmente dois (as nuvens e o céu) ou tudo isso aparece como um único fluxo, só se mostrando de modos/formas diferentes?
Como disse, tudo é simultâneo. A diferença é que os objetos, as nuvens, surgem, se transformam e desaparecem, enquanto o céu não surge, não se transforma nem desaparece. E é exatamente por isso que podemos afirmar que as coisas surgem, se transformam e desaparecem.
Quando você percebe a certeza de ser, ela surge em algum lugar separado do que está sendo visto ou sentido, ou é parte do mesmo movimento que as nuvens e o céu?
A certeza de ser não surge, não se modifica nem desaparece. Ela sempre existiu e sempre existirá. É a mesma certeza que eu tinha aos 10 anos, aos 20, 30...e 60 anos. E agora mesmo. O velho Edson é bem diferente do jovem Edson. O Edson alegre e eufórico é bem diferente do triste e deprimido. Mas a certeza de ser permanece a mesma. Noutras palavras, o Edson, e seu estados de ânimo e circustâncias em geral, não é o sujeito mas apenas um objeto da consciência.
Exercício: feche os olhos por alguns instantes e observe o surgir de imagens, sons e sensações etc. Perceba se há algum ponto “onde a consciência está” ou se é tudo apenas acontecer, sem alguém por trás.
Não há nenhum ponto nem ninguém. A consciência de ser é não local. Não tem nenhuma qualidade objetiva. Por isso não pode ser conhecida objetivamente, nem encontrada em nenhuma parte, seja fora ou dentro, na mente ou no corpo.
Esse “espaço” que parece fixo, onde ele está agora? É algo separado das coisas que surgem nele, ou o próprio espaço é apenas o aparecer das coisas, sem existir “por trás” delas?
Espaço é só uma metáfora. Mas é uma boa metáfora. Tente imaginar o seu ambiente sem objetos. Vá eliminando um por um, até não sobrar nada, nem paredes, nem prédio, nem a cidade, o planeta, o universo, nada. O que acontece? Você conseguirá imaginar o espaço vazio, mas não conseguirá imaginar o nada, ou seja, o não espaço. A mesma coisa se passa com a consciência. Ela é ineliminável.
Se você tenta localizar o espaço fora do que aparece, já não está dentro da própria experiência que aparece?
O espaço não é localizável; ele é que permite localizar as coisas. A consciência é não local, não objetiva, "subjetiva", não pode ser localizada no cérebro, no corpo, na mente, em parte nenhuma. É incognoscível. Estar ciente de si não é se conhecer psicofisiologicamente, mas simplesmente ser consciente.
Exercício: novamente, observe um som, uma sensação ou um pensamento. Pergunte-se: onde está o espaço que os “contém”? Ele é um objeto ou apenas o próprio aparecer desses elementos?
Outra metáfora: a onda que se quebra na praia é o próprio oceano, mas o oceano continua existindo sem ondas. Ou o Sol, que ilumina tudo, mas é autoimuninante.
Olhe diretamente: há mesmo “uma consciência que sabe da outra”, ou isso é apenas outro pensamento surgindo no fluxo da experiência?
Não há duas consciências, muito menos bilhões de consciências. Pensamentos não são conscientes de nada. Mas, para existirem, precisam ser conscientizados. O que seria um pensamento desconhecido?
Antes de pensar “eu sei que existe consciência”, já havia o simples acontecer dos sons, das sensações, dos pensamentos?
Não, para mim é justamente o contrário: sem saber de mim, como consciência, não poderia saber de nada outro.
Se sim, a consciência que você chama de “céu” realmente precisa de outra consciência para se perceber, ou ela é o próprio aparecer do que surge?
Eu apenas usei um argumento ad absurdum: se a consciência surgisse e desaparecesse com os objetos, nós não poderíamos afirmar nem mesmo isso, ou seja, que ela surge e desaparece, pois, para constatar isso, seria necessário estar consciente durante o surgimento e desaparecimento da consciência.
Exercício: feche os olhos e observe algo que surge (som, sensação, pensamento). Note se há algum ponto de quem “sabe” ou se é tudo o mesmo fluxo.
De novo: é tudo a mesma coisa, não há um "sujeito" com qualidades objetivas, localizável por trás do fluxo. Agora, se você me pergunta se estou consciente, responderei imediatamente que sim e independentemente do fluxo.
Há um “alguém” separado observando ou é o próprio surgimento dessas experiências que já é percebido, imediatamente, sem intermediário?
May, o ego, o Edson, é um feixe de impressões, crenças, necessidades, desejos, narrativas, histórias etc. Ele não pode conhecer nada sem a consciência. O que ocorre é que a consciência, de alguma forma misteriosa, pelo menos para mim, se individualiza ao se identificar com objetos, a começar com o corpo. Essa identificação da mente não pessoal com uma suposta pessoa é o que chamamos de mente, cujo núcleo é o ego. O corpo-mente-ego deve sua aparente existência à consciência. Então, é claro que se pode afirmar que ego e consciência são a mesma coisa. Mas do ponto de vista da consciência, do céu, do oceano, não são.
Se não há separação, a consciência não seria apenas o próprio aparecer do que surge, inseparável dos pensamentos, sentimentos e sensações?
Não é essa a minha experiência. E você já percebeu que não sou iniciante nisso. Pensamentos, sentimentos e sensações são inseparáveis da consciência, mas esta é perfeitamente distinguível disso tudo. Sem prejuízo da não-dualidade.
Exercício: observe um pensamento surgindo agora. Pergunte-se: há alguém separado percebendo, ou o pensamento já se mostra por si mesmo, junto com o perceber?
O aparecer dos pensamentos é o mesmo processo que sua conscientização. Mas disso não se segue que a consciência também apareça ou desapareça com eles. Isso contradiz a nossa experiência. Não sei como você pode pensar assim, se é que pensa mesmo assim.
O que surge quando você deixa de procurar explicações e apenas observa a experiência como ela é, sem interposição de conceitos?
Essa é uma questão complexa, não? Em primeiro lugar, porque precisamos recorrer a conceitos para responder. Em segundo, porque a fronteira entre a experiência imediata e a conceitualmente mediada é, por assim dizr, contraintuitiva. Até que ponto conceitos não são necessários para que "percebamos" qualidades espaciais e temporais, como cores, formas, dimensões, movimentos etc.? Será que o próprio espaço não é um conceito? Como podemos distinguir forma e fundo, por exemplo, um professor diante da lousa, sem conceitos espaciais, topográficos etc.? Não consigo perceber, mas apenas abstrair. Mas posso muito bem distinguir a consciência de ser da consciência de objetos.
Se observar profundamente, é possível perceber que até a “certeza de ser” é apenas mais um conteúdo que aparece, inseparável do que surge agora?
Até agora, não. O que significa, no meu caso, anos a fio. A certeza de ser não é conteúdo, mas, por assim dizer, o continente.
Exercício: dedique alguns instantes a apenas observar, sons, sensações, pensamentos, a própria sensação de existir, sem tentar descrever ou entender. Note se há algum ponto “que sabe” ou se tudo é apenas o acontecer.
Volto aos óculos no nariz: não posso observar a consciência, pois é ela que observa. Eu simplesmente sou consciente de mim mesmo como ser consciente. Mas, de novo, esse "mim" não se confunde com o ego. O ego cresce e diminui, surge e desaparece. "Eu" sei disso porque sou permanente. A linguagem é um instrumento evolucionário, assim como a própria mente e o ego: precisamos deles para sobreviver. Ela não serve para falar do que não é objetivo, coisal. Por exemplo, quando chamamos a certeza de si de consciência, de percepção, de Eu ou seja lá como for, nós a reificamos, coisificamos, a transformamos numa "substância". A estrutura da grande maioria dos idiomas é justamente substantivo-verbo-predicado. Pela minha experiência, sou levado a dizer, porém, que não existem coisas, objetos substantivos, mas só processos, fluxo. O Eu não é uma coisa, mas um processo. O ego, igualmente. Etc. Isso só se torna um problema quando acreditamos que somos apenas ego (corpo-mente). É a ignorância acerca da nossa natureza, nossa essência como ser, conhecer, ou seja lá o verbo escolhido para dizer o indizível.
Edson, o objetivo aqui não é afirmar, negar ou provar nada. O que importa é a investigação direta na sua experiência. Tudo o que foi aprendido, lido ou pensado sobre espiritualidade, consciência ou observador não tem valor neste momento. Aqui, nada substitui o olhar atento para o que surge agora. O ponto é ver, sentir e perceber diretamente, sem se apoiar em narrativas antigas ou ideias já formadas.
Sim, é o que venho tentando fazer faz tempo. Entrei aqui justamente porque esta é a proposta de vocês.
Quando desapegamos de antigas crenças e narrativas, damos espaço para ver as coisas como de fato elas são! A palavra não é a coisa.
Entendo o que quer dizer. Mas a expressão que você escolheu é dualista. De um lado haveria a coisa, e de outro a palavra. Mas será mesmo que podemos separar as coisas dos respectivos conceitos? Se eu lhe desse como presente um objeto que você desconhece totalmente, não sabendo nem do que é feito nem para que serve, ainda assim você saberia dizer um monte de coisas sobre ele: que ocupa lugar no espaço, tem massa, forma, dimensões, cores, cheiro etc. E, veja, isso tudo antes mesmo de abrir o embrulho.
Cada observação sua é uma oportunidade de ver que a própria “certeza de ser” já é parte do fluxo que você observa, e que não há ninguém além do que acontece.
Acho que a nossa discordância está no fato de você, ao que parece, reduzir a consciência a uma qualidade do que aparece ou, em todo caso, a algo que aparece simultaneamente com as demais aparições. A um aparecer. Como tentei dizer, não é isso que constato na minha experiência.
Abraço e bom fim de semana,
Edson