Bom dia, May!!!
Estou bem, nesse momento. (rs)
Franchi, deixe de lado os conceitos por um momento, observe atentamente e me diga: o que é isso que você chama de 'processo'? Ele é algo real acontecendo com 'alguém', ou apenas uma ideia sendo narrada agora?
Não tenho a menor ideia, mas quando você questiona me parece mais um movimento de resistência, mais uma tentativa de postergar a aceitação da realidade... Mais uma narrativa ...
Sem essa história de 'processo', o que resta, aqui e agora? Existe mesmo um 'você' atravessando tudo isso, ou só o movimento natural da vida?
só resta a realidade imediata... um você se segurando a uma bóia de salva vidas, não querendo ser engolido pelo turbilhão da verdade... lógico, tudo seguindo o movimento natural da vida.
Sim, aparentemente, ainda existe essa narrativa na sua percepção... Mas, agora, neste momento, sem recorrer ao passado, onde estão esses resquícios?
apenas na memória, em alguma narrativa persistente.
Esses 'resquícios' de disciplina, crenças e culpa... quem exatamente os carrega?
nem eu sei mais... porque já não acredito mais nisso.
Será que há realmente um 'alguém' aqui que precisa se purificar ou evoluir? Ou isso não é apenas mais uma história sendo contada, um pensamento surgindo?
Ninguém em absoluto. Como sempre, mais uma história, mais um pensamento.
Se deixarmos de lado toda essa bobagem de conceitos espirituais, o que estamos realmente observando aqui e agora?
A vida acontecendo e sendo percebida na experiência imediata.
Tenho insistido muito e batido nessa tecla, mas não vejo outra forma de você perceber isso a não ser vendo diretamente na sua experiência. Só observando isso diretamente, sem as histórias, é que a clareza pode surgir. Caso contrário, seria apenas perpetuar mais narrativas e se apegar ainda mais a conceitos.
Sim, May, eu entendo e se você não insistir, talvez eu realmente fique preso a essas narrativas e fique criando ou ressuscitando conceitos.
O ponto aqui é: existe um 'alguém' acompanhando o fluxo, ou existe apenas o 'fluxo'?
Existe apenas o fluxo.
Existe uma entidade separada do todo, tentando se encaixar num fluxo/totalidade, ou isso não é apenas uma ideia ou história sendo contada?
Acredito que ainda exista uma entidade separada, mesmo que de forma ilusória, que luta para entender direito tudo o que está acontecendo, se apegando nesta história de processo ou de graduação, mesmo sabendo que isso não é verdade. Pode ser resistência, movimento ou seja lá o nome que podemos dar, mas o fato é que não tenho ainda esta percepção de estar integrado a tudo, sendo na verdade parte desta unidade.
Vamos mais a fundo: se tudo está acontecendo dentro de um contexto maior, quem exatamente é o 'alguém' que tem medo de perder o controle?
Acredito que não seja uma questão de medo de perder o controle... Acho que é algo mais relacionado a insegurança, e o alguém é este ser que ainda não se sente parte de uma unidade.
E quando você diz que não há partes individuais se manifestando, mas o todo fluindo, você percebe que até essa ideia de 'controle' ou 'autonomia' também faz parte desse todo/fluxo?
Entendo sim, só é dificil de conceber de vez em quando.
Se o medo, a insegurança, a liberdade... são todos movimentos do 'todo', não separados... Uma pergunta importante: você se identifica com o movimento ou com a história do 'eu' tentando controlar?"
Não sei ao certo, porque mesmo essa identificação ainda oscila para mim.
Mas, me diga, quem exatamente está esperando que o condicionamento e a resistência se exauram para chegar a essa percepção? Não seria mais uma ideia ou história que a mente cria, dizendo que é necessário 'tempo' ou 'processo'?
Sim, sem dúvida é mais uma história... Ainda sinto tudo muito fragmentado e talvez essa espera seja a postergação que mantém a narrativa em círculos.
Onde estão esse tempo e esse processo, se não nas narrativas? O que são eles, senão meros conceitos?
Sim, são meros conceitos. Na realidade imediata eles não existem.
E se essa percepção que você fala já está aqui, no momento presente, além de qualquer resistência ou condicionamento? Não percebe que a ideia de um futuro onde isso 'acontece' é também apenas mais uma história sendo contada?"
Pode até estar, mas a verdade é que ainda não a percebo. Sim, todas as projeções e expectativas são histórias, narrativas...
Sim, esse 'vazio' pode parecer surreal, mas ele é simplesmente a ausência das histórias e identificações que a mente cria. O 'vazio' não está preenchido com mais conceitos ou com a ideia de 'fim dos condicionamentos', mas sim com a clareza de que quando a mente se aquieta, o que resta não é um vazio 'cheio de nada', mas simplesmente o que já está aqui, sem as projeções da mente, sem o apego às historias.
Entendo isso conceitualmente, mas neste exato momento, ainda não tenho esta clareza.
A mente sempre quer colocar rótulos e fazer do vazio algo a ser alcançado, mas, se o observarmos diretamente, será que esse vazio não é apenas a presença do momento, sem a identificação com 'condicionamentos' ou 'processos'?
Concordo, mas parece fácil quando na verdade fica bastante conturbado quando estamos em uma fase quando várias coisas que demandam uma ação de nossa parte estão acontecendo. Isso parece que nos abstrai um pouco do momento e nos leva a fazer projeções.
Fico feliz que a conversa tenha sido significativa, mas quero deixar claro: não se trata de mais conhecimento. O que está acontecendo aqui é o oposto – é sobre abandonar a ideia de saber, é sobre mergulhar no 'não saber'. A mente sempre tenta entender, rotular e controlar, mas o ponto é justamente ir além disso. Não há nada a ser compreendido, não há respostas a serem encontradas. Só há a presença do que é, sem explicações, sem narrativas, sem a necessidade de se 'resolver'. O que você está buscando não está em mais conhecimento, mas em abrir mão de todo esse esforço de entender. É só nesse 'não saber' que a clareza pode surgir.
Talvez eu tenha me expressado mal, quando na verdade preciso de sua experiência e não de conhecimentos. Entendo que por vezes o conhecimento pode até atrapalhar, ainda mais nesta percepção da realidade imediata, sem rótulos, conjecturas e coisas do gênero.
Honestamente, não tenho um livro específico que tenha sido profundamente impactante. Na verdade, percebi mudanças na minha percepção quando parei de ler livros e comecei a observar a minha experiência direta. Essa questão do consumo de conteúdo é complexa, principalmente porque não existe uma 'receita de bolo' para esse despertar. Cada indivíduo tem uma percepção única e, ao tentar transmitir isso a outros, acaba expondo de acordo com seu universo de percepção, que é humanamente limitado. Por isso, alguns conteúdos ressoam e outros não. Comigo, o que mais ressoou foi Allan Watts (muito didático e poético, eu diria), Nisargadatta Maharaj (radical e direto), e lembro que eu gostava de assistir alguns vídeos, como os do canal Soawake (Josh Putman, muito didático e empático), e Angelo Dilullo, do canal Simply Always Awake (tem vídeos sobre todos os tópicos de não-dualidade).
Agradeço muito pelas suas dicas, conheço todas as fontes... (rs), com exceção do Josh Putman.... Allan Watts me "chocou" muito pela sua praticidade e simplicidade, quando eu ainda estava muito preso aos conceitos do Advaita Vedanta... Nisargadatta sempre trouxe coisas muito surpreendentes para mim porque foi minha primeira leitura sobre Não Dualismo... Talvez seja muito interessante ler novamente "Eu sou aquilo" depois de tantos anos. Angelo Dilullo foi outro autor que me chacoalhou, porque achei ele meio com jeito de maluco, mas dizendo coisas que faziam muito sentido. Talvez com o tempo reveja todo este material sobre outro prisma.
Ontem comecei a ler "The transparency of things" do Rupert Spira e me surpreendi com a abordagem mais direta e objetiva que eles está usando neste livro, pois ele sempre foi um cara muito politicamente correto e que usava uma sutileza muito grande e ponderada para fazer suas colocações.
Bom, seu amigo aqui está um pouco emperrado e acho que a insegurança que se manifesta ainda está muito atrelada a falta de certeza sobre tudo. Sempre me identifiquei muito com o não dualismo de forma conceitual, mas depois que fui entender o tamanho da "bagunça" que é a vida e o "universo" quando nos despimos de nossas crenças e conceitos. Bagunça é maneira de dizer, quando na verdade as coisas ficam muito mais simples e descomplicadas. Viver o não dualismo é algo muito diferente de tudo o que já aprendemos e pensamos que era verdade. Além do quê, é uma jornada solitária...